Gestão das Emoções Diante do Stress

Gestão das Emoções é Viável. Erradicar Stress, Impossível.

"Gestão das Emoções é um dos 4 pilares do estilo de vida saudável." Dr. Alexandre Feldman
“Gestão das Emoções é um dos 4 pilares do estilo de vida saudável.” Dr. Alexandre Feldman

Quando a gente pensa e fala num estilo de vida saudável, está se referindo a uma boa alimentação, uma boa gestão do movimento, do sono e das emoções. Esses são os que eu chamo os 4 pilares de um estilo de vida saudável, dentro daquilo que, um dia, eu batizei de medicina do estilo de vida.

Eu quero falar sobre um aspecto da gestão das emoções, que é muito confundida com “gestão do stress”.

Infelizmente, ouve-se muito por aí os termos gestão do stress, minimização do stress, erradicação do stress. Implicando que stress é uma coisa ruim, algo que nos afeta negativamente e pode até nos matar, e argumentando que existem estudos mostrando que podem mesmo matar, além de desencadear dores de cabeça, enxaqueca, problemas cardiovasculares, câncer e uma série de outras doenças.

Mas – até que ponto isso representaria uma visão simplista e incompleta? É isso que eu quero convidar vocês a pensar.

Quanto stress você teve no último ano?

Pesquisadores na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, fizeram um estudo prospectivo sobre exatamente esse assunto. Eles pegaram muitas pessoas e deram a elas um questionário com várias perguntas, entre elas a seguinte: No último ano, quanto stress você teve? Qual o nível de stress que você teve no último ano? Baixo, médio, alto?

Depois de 5 anos, os pesquisadores analisaram os obituários, para ver quem morreu dentre as pessoas estudadas.

E o que eles descobriram foi o seguinte: que aqueles indivíduos que tiverm alto nível de stress tiveram um índice de mortalidade cerca de 40% maior que aquels que não tiveram stress ou tiveram pouco stress.

Mas a história não termina aí. Tinha uma outra pergunta naquele questionário, e era a seguinte: Na sua opinião, você acredita que stress faz mal para a sua saúde?

E a grande surpresa é a seguinte: para quem respondeu que não acredita que o stress faz mal à saúde, e teve muito stress, a estatística de mortalidade desse grupo foi igual à daquele grupo que não teve stress nenhum.

O poder da emoção provocada pela crença

Então veja só que interessante: esse estudo demonstra que quem matou não foi o stress – mas sim, acreditar que o stress faz mal à saúde. Acreditar que o stress pode, efetivamente, te matar. [Fonte: Health Psychol 31(5):677-84]

Por isso existe uma diferença imensa entre o que alguém chama de gestão do stress, e o que alguém chamaria de gestão das emoções.

Pode requerer um tempo para você entender todas as implicações desse tipo de estudo de vanguarda. Mas veja abaixo apenas algumas:

Quando você acredita que uma coisa vai te fazer mal, essa coisa vai te vazer mal mesmo. É claro que vice-versa também.

Qualquer médico sabe que aquele paciente que entra no tratamento com o peito aberto, com aquela certeza de que o tratamento vai ser bom, tem uma chance muito maior de sucesso terapêutico. Por outro lado, qualquer paciente que olha para aquele tratamento, aquele remédio, achando que aquilo vai fazer mal, pode ter uma chance maior de insucesso naquele tratamento. Estudos como este podem explicar esse fenômeno.

Outra coisa importante: alguns de nós médicos temos a mania de falar aos pacientes que “se você não fizer isso, ou se você fizer daquele outro jeito, vai te acontecer isso, aquilo, etc, de ruim” – “suas artérias vão entupir, você vai pegar câncer, você vai ficar mal”… Claro que a gente pode falar desses riscos, mas tem jeito pra tudo. E é até um motivo muito importante para você não ler ou se informar sobre saúde a partir de fontes erradas que podem colocar crenças negativas em nível populacional sobre coisas que, um tempo depois, pode-se descobrir que não eram tão importantes assim. Hoje, por exemplo, está se falando muito que colesterol não é aquele vilão que se imaginava tempos atrás. E aí, antigamente, a pessoa quando via que o colesterol dela estava alto, já se achava com o pé na cova. Quanto dessa crença pode ter influenciado negativamente a saúde daquelas pessoas, mais até do que o próprio nível de colesterol?

Isso também não quer dizer que a gente precisa se alienar completamente, não querer fazer do que faz bem ou do que faz mal, porque “só importa o que eu acredito”.

A maior importância dessa mensagem é que ela é sutil, envolve muita sabedoria e envolve muito a boa gestão das emoções.

As religiões já sabem disso e já sabem que fé pode curar. Quer dizer: o que você acredita, pode curar. Os maiores líderes espirituais que passaram pela Terra mostraram isso: Jesus Cristo, diz a Bíblia, perguntava à pessoa se ela acreditava que aquele milagre, de uma cura por exemplopoderia acontecer, antes e como pré-requisito para que efetivamente acontecesse.

Então uma das lições para se levar para casa é saber analisar com atenção, desenvolver um senso de discriminação, um “filtro”, com relação àquilo que a gente lê, ouve e vê com relação a informações de saúde e doença. Você tem que escolher o que quer ler, ouvir e ver, com sabedoria. Você deve, sim, dar boas vindas à ciência honesta – mas você deve evitar toques e temperos sensacionalistas. Ameaçadores. Que podem te fazer, às vezes, não acreditar na tua própria capacidade de, em conjunto com o profissional de saúde que você escolheu muito bem, causar progresso na tua vida, no teu estilo de vida, na gestão das tuas emoções, na tua saúde como um todo.

Portanto, não é simplesmente desprezar o fato que pode existir risco, por exemplo, uma trombose quando você toma pílula anticoncepcional. Afirmar que “Eu não vou acreditar que essa pílula anticoncepcional pode me causar uma trombose e eu vou continuar tomando, não importa – que aí eu não vou ter”, seria ir contra dados científicos obtidos de uma forma estatística, que não vale à pena você contradizer. Seria leviano. Não é o caso. Agora – uma atitude positiva do que fazer com esse tipo de informação é tudo de importante. Quer dizer: como você vai gerir essa informação, ou a tua crença baseada nessa informação e, principalmente, como vai ser a tua atitude daqui para frente, pra você realmente ficar bem. Esta sim, é mais uma lição para levar para casa.

Existe o próprio stress em si. Quer dizer: quantas coisas ruins acontecem, e quanto que o nosso organismo reage a isso? Então, por exemplo, você recebe uma contrariedade, você sobre uma perda – seja ela emocional, financeira, familiar – enfim, você tem uma série de problemas… Qual a tua reação com relação a tudo que está acontecendo com teu organismo? Você está encarando essas reações de uma forma positiva? Por exemplo, se você está chorando em relação a algo ruim que aconteceu, esse choro é ruim, ou representa uma coisa boa que teu organismo está fazendo como a resposta mais adequada a esse stress que te fez chorar? Se o teu coração está batendo mais acelerado em função de um nervosismo, será isso uma coisa ruim, ou será isso nada mais, nada menos, que uma reação adequada com a finalidade de colocar teu sangue em movimento para oxigenar mais teus tecidos nessa hora de stress em que você, seus músculos, seu cérebro precisa tanto desse oxigênio?

O ponto onde eu quero chegar é que não é errado ter stress. Aliás, stress é uma coisa inevitável. O que é evitável é você ter uma reação negativa ao stress propriamente dito.

Então você deve atenuar o que deve estar acontecendo em termos de reação do teu organismo, com a crença verdadeira de que toda essa reação que está te acontecendo é parte da maneira do organismo de lidar com aquele stress. A gente pode pegar de novo um exemplo nas religiões. Algumas das mais importantes religiões dizem que quando a pessoa morre, ela vai para um lugar melhor, um lugar mais elevado, a alma da pessoa vive. E aí, quem ficou, continua triste – mas já tem aquela crença que vai explicar, vai justificar, vai atenuar qualquer reação negativa do organismo àquela perda sofrida. Outras crenças/religiões falarm de Universo. “Jogar para o Universo”. “Entregar para o Universo”. Por exemplo, o teu namorado, marido ou esposa te abandonou, mas você joga aquilo para o Universo. Acredita que o Universo vai conspirar para fazer disso “uma lição pra mim – pra eu evoluir – pra eu crescer – pra eu me tornar uma pessoa melhor“. Eu não estou usando nada mais do que sabedoria, até milenar, para gerir minhas emoções. Gestão das emoções.

O assunto da gestão das emoções obviamente não acaba aqui, mas escrevi este artigo é só para você pensar, realmente, na força que você tem quando você acredita em alguma coisa.

Publicado por Dr. Alexandre Feldman

Médico clínico-geral, autor de vários livros, criador dos sites MedicinaDoEstiloDeVida.com.br e Enxaqueca.com.br, palestrante, criador do termo "Medicina do Estilo de Vida", para designar a vertente da medicina que prioriza mudanças de hábito e estilo de vida para a prevenção e recuperação de doenças. Tem consultório em São Paulo, cidade onde mora com sua esposa Pat Feldman e dois filhos.